Projeto Não-Violência Lição de paz nas escolas

Sobre a Cultura de Paz

'Tá Combinado' no CE Cecilia Meireles - Um Relato de Experiência

Somos uma ONG internacional com sede na Suíça, e no Brasil atuamos na cidade de Curitiba. Nossa ONG chama-se Projeto Não-Violência (PNV) e temos como foco do nosso trabalho, o desenvolvimento e fortalecimento de uma cultura mais pacífica por intermédio das escolas, ou seja, atuamos sobre as possíveis situações que possam estar gerando relacionamentos não produtivos, falta de diálogo e falta de respeito entre os membros da comunidade escolar. Mas mais que isso, fomentamos através da escola atitudes pró-ativas para a cultura da paz.

O Projeto Não-Violência costuma atuar em parceria com a escola, visando identificar problemas específicos e ajudar a escola a encontrar alternativas para combater estes problemas. Em 2005 ficou mais do que claro que o problema principal e comum das escolas atendidas pelo PNV era a questão da indisciplina – por parte dos alunos e (também!) por parte dos adultos. Os profissionais das escolas traziam várias queixas, como: "não consigo dar nenhuma aula sem perder muito tempo resolvendo questões de indisciplina", "os alunos conversam demais", "os alunos são agressivos, xingam-se um ao outro o tempo todo", "os alunos não fazem as tarefas", "os alunos depredam a escola", "os alunos não trazem o material pedido, não fazem trabalhos". Porém, a equipe de direção das escolas também trazia diversas queixas com relação à disciplina dos profissionais: faltas de professores, atrasos, não cumprimento de prazos, aulas não planejadas ou de má qualidade, falta de respeito às regras coletivas da instituição.

Tendo em vista esta realidade, o Tá Combinado constituiu uma proposta que "caiu como uma luva" para suprir as necessidades mais urgentes das escolas. Decidimos, desta forma, estudar o material de maneira mais profunda e fazer grupos de reflexão sobre o pacto de convivência. Os grupos foram formados paralelamente em 4 de nossas escolas parceiras.

Detalhes do processo em uma escola

Os trabalhos iniciaram na Escola Estadual Cecília Meireles no segundo semestre de 2005, com um pequeno grupo de profissionais representante da escola. Estudamos o livro 'Tá Combinado' e em cima dele, o PNV montou uma apostila com sugestões de atividades para as fases de construção do pacto: sensibilização, reflexão, construção e sustentabilidade, incluindo a sugestão de um fluxo de conseqüências para o caso do pacto ser descumprido. Esse pequeno grupo da escola, juntamente com o PNV, organizou para o ano de 2006, a implementação do pacto para toda a escola pensando em como seria, quem participaria, se seria voluntário ou não.

Diante dessas possibilidades, resolvemos que além dos alunos, os profissionais também precisavam de um combinado, isso poderia minimizar a desorganização, ampliar a possibilidade de se estabelecer uma linguagem comum, aumentar o comprometimento com a escola e criar no grupo uma noção forte de identidade. O grupo, que era majoritariamente formado pelas lideranças da escola (direção, equipe pedagógica, funcionários e professores líderes), também decidiu que o pacto deveria ser algo que envolvesse a escola toda, e não apenas as turmas dos professores que quisessem voluntariamente envolver-se na construção. Teria que ser algo de impacto para que os resultados fossem vistos e sentidos pela escola toda.

Profissionais do CE Cecília Meireles reunidos na construção do Pacto de Convivência

Assim, no início do ano de 2006, aproveitamos a semana pedagógica para construirmos o pacto com todos os profissionais, pois esta semana é uma das poucas nas quais há possibilidades de estarem todos juntos. O grupo das lideranças, que estava então preparado por nós para coordenar as atividades, conduziu toda a construção com os profissionais, desde a sensibilização, até a elaboração de um cartaz com direitos e deveres aprovados por todos e com a promessa de que iriam se esforçar para que os compromissos fossem cumpridos.

A segunda etapa, também conduzida pelo grupo de lideranças, foi ensinar aos professores como deveriam proceder na construção do pacto com os alunos. Sugerimos que a primeira semana de aula fosse diferente, que ao invés dos professores iniciarem com suas disciplinas e conteúdos específicos, dedicar-se-iam a construir um bom vínculo com os alunos e um pacto de convivência que pudesse balizar a relação não só entre os alunos mas também entre alunos e professores. Cada professor conselheiro passaria a semana toda com a sua turma, com várias atividades previamente preparadas para a que construção fosse bem sucedida. Desta forma, ao final da semana, todos os professores conselheiros deveriam ter cumprido o objetivo de iniciar a semana seguinte com um cartaz com os direitos e deveres de cada turma, juntamente com um fluxo de conseqüências elaborado pela própria turma para quando o pacto fosse descumprido.

Profissionais do CE Cecília Meireles participando de dinâmica

Na segunda semana de aula, tanto os profissionais quanto os alunos deveriam estar cientes de seus direitos e deveres naquela escola. Sabíamos que a prevenção e redução da indisciplina seria apenas um efeito desejado, pois o principal seria desenvolver junto aos alunos e profissionais o comprometimento e responsabilidade com a escola e com suas funções, além disso, desejávamos aumentar a coesão e identidade dos grupos de profissionais e de alunos, o que fatalmente reduziria a violência escolar.

Sabíamos que nem tudo seriam flores e que inúmeras dificuldades apareceriam no caminho, como de fato apareceram. Já prevendo isso, pedimos à escola a criação de um espaço que pudesse reunir, ao menos quinzenalmente, os profissionais de cada turno, pensando que isso colaboraria imensamente para a manutenção do pacto entre os profissionais e entre os alunos.

Assim surgiu o "espaço permanente de diálogo", que acontece quinzenalmente na escola nos turnos da manhã, tarde e noite, onde os profissionais do turno se reúnem para discutirem as dificuldades de manutenção do pacto. Neste espaço, discutimos problemas, compartilhamos experiências e casos de sucesso. A criação desse espaço tem sido fundamental na reestruturação da escola. Sentimos que os profissionais estão mais unidos, mais aptos e seguros a lidar com as dificuldades do cotidiano escolar, mais cientes do seu papel de educador e mais comprometidos com a escola.

Contribuições do Pacto de Convivência

Neste ano, motivados pela idéia do pacto de convivência, os conselhos de classe na Escola Estadual Cecília Meireles têm sido realizados utilizando critérios estabelecidos pelo "Tá Combinado". Os alunos são avaliados também em função de como se portam diante dos deveres criados por eles na construção do pacto de convivência, assim como os profissionais se auto-avaliam e são avaliados pelos alunos. Para nós, isso é um ganho, pois quando entramos na escola, a avaliação dos profissionais entre si e pelos alunos era praticamente um tabu. E sabemos o quão importante são as avaliações para a manutenção daquilo que foi combinado.

Foi criada também uma política de reconhecimento e incentivo aos profissionais que mais colocam em prática as idéias surgidas no espaço permanente. Para esses profissionais, a escola tem dado medalhas, que são concedidas a partir de avaliações feitas pelas turmas de alunos. Assim têm as categorias "o profissional que mais segue os combinados", "o que dá a aula mais criativa", "o mais justo", "o que desenvolve o melhor vínculo com a turma", etc... Isso contribui para um aperfeiçoamento crescente da prática pedagógica e para o comprometimento cada vez maior com a escola.

Demais escolas parceiras

O processo foi semelhante nos Colégios Estaduais Dona Branca, Hildebrando de Araújo e Monteiro Lobato. Tivemos um pequeno grupo de professores e pedagogos de cada escola, participando das discussões sobre modelos mentais e sobre as etapas de construção do pacto de convivência abordadas no livro de Feizi Milani. Desde o início, todos se mostraram bastante envolvidos e motivados com a proposta. Lemos juntos alguns trechos do livro, refletimos muito, esclarecemos dúvidas e conseguimos traçar algumas estratégias para propor a idéia da construção do pacto para as escolas.

Construção dos combinados dos profissionais do CE Hildebrando de Araújo

Em cada escola, realizamos uma apresentação da proposta de construção do pacto para todos os professores. Em geral, a idéia foi bem recebida. A maioria considerava fundamental pensar em novas estratégias para lidar com a indisciplina e tornar a escola um ambiente mais agradável e pacífico. Houve, é claro, algumas dificuldades: por parte de alguns, houve uma certa resistência de aceitar a idéia nova; outros, manifestaram um certo temor com o fato dos alunos não estarem preparados para participar; uns temiam que os alunos tivessem excessiva liberdade com um trabalho como esse e a indisciplina poderia acabar piorando.

Contudo, os profissionais aceitaram o desafio de implementar a filosofia do pacto de convivência. O Projeto Não-Violência ajudou as escolas a elaborar um plano que foi colocado em prática no início de 2006. Primeiramente, os profissionais construíram o pacto de convivência dos adultos, utilizando um dia inteiro de reunião para fazer a sensibilização, a reflexão contextualizada, a construção e discutir estratégias para realizar a sustentabilidade.

Com os alunos, o processo de construção começou a partir da segunda semana de aula. Cada professor coordenou o trabalho numa determinada turma. Os profissionais realizaram dinâmicas de grupo com o objetivo de integrar a turma, refletir sobre os objetivos da escola, falar sobre a importância do espírito coletivo e pensar sobre a importância de regras para uma vida em sociedade. Na semana seguinte foi o momento da reflexão contextualizada – os alunos refletiram sobre princípios de convivência e sobre a importância dos direitos e deveres na sala de aula. Realizou-se também a construção do combinado e cada turma ficou com uma lista singular de direitos e deveres.

Profissionais da EE Dona Branca

Consideramos que este trabalho foi uma atitude ousada por parte da escola, que levou a termo um trabalho efetivamente coletivo, procurando modificar a maneira tradicional de abordar questões disciplinares. Antes do pacto de convivência a escola elaborava um papel com uma lista de proibições. Esta lista era entregue para os alunos na primeira semana de aula. A maioria dos alunos nem sequer lia esta lista e muitos acabavam perdendo o papel durante o ano. Com o Pacto de Convivência as regras do grupo foram sugeridas pelos próprios alunos, foram passadas a limpo e afixadas num cartaz grande, na própria sala de aula.

Muitos professores tiveram um envolvimento bastante entusiasmado e criativo durante o processo. Houve reflexões bastante interessantes realizadas com os alunos. Muitos estudantes questionaram o sentido das regras tradicionais, como a proibição do uso do boné ou do chiclete em sala de aula. Muitos professores se surpreenderam com opiniões maduras de alguns alunos que defenderam idéias como evitar o uso de celular em sala e criar regras diferentes para adultos e adolescentes (reconhecendo que são fases diferentes com diferentes responsabilidades). Também percebemos grande preocupação dos alunos com o cumprimento dos combinados por parte dos profissionais.

É claro que este trabalho não se deu sem alguns percalços... Muitos professores tiveram dificuldade de assumir um novo papel, o papel de facilitador, quebrando a tradição de ser um mero transmissor de conteúdos. Muitos tiveram expectativas muito altas e não realistas com relação aos resultados do trabalho, não compreendendo verdadeiramente que o pacto entra como uma proposta de mudança de cultura, a médio e a longo prazo. Muitos não compreenderam que o ser humano, especialmente o ser humano criança e adolescente, está num processo contínuo de transformação... a responsabilidade precisa ser estimulada, não exigida... Muito esperaram um compromisso imediato em cumprir o que foi escrito no pacto, esquecendo-se de que este compromisso precisa ser desenvolvido no dia a dia, através da sustentabilidade, com muita reflexão e prática. Outros professores relataram simplesmente que não estão acostumados a usar o pacto e sentiram dificuldade de integrar as reflexões sobre o combinado à dinâmica da própria aula. Com os alunos mais novos, da 5a série do ensino fundamental, os profissionais tiveram mais dificuldades, pois não houve a preparação de uma estratégia específica para esta faixa etária.

Profissionais da EE Moradias Monteiro Lobato

Em relação aos alunos, percebemos que muitos gostaram da novidade, participaram das discussões, divertiram-se com as dinâmicas de grupo e tiveram a oportunidade de falar sobre assuntos que muitas vezes não têm tempo de abordar na rotina normal da escola. É claro que muitos alunos também se recusaram a participar, não levaram a sério as conversas e/ou não entenderam os objetivos do trabalho. Alguns alunos, acostumados com aulas tradicionais, acharam que a etapa de construção do pacto foi apenas um período de duas semanas sem "aulas de verdade".

Depois da construção, foi o momento de avaliarmos o processo e partirmos para a sustentabilidade do pacto. Também foi criado o Espaço Permanente de Diálogo nestas escolas, para que os profissionais pudessem compartilhar suas dúvidas, angústias, dificuldades e experiências positivas com o pacto. Nestes espaços os modelos mentais, que até então estavam meio "latentes", apareceram com todas as forças. A confusão entre autoritarismo e autoridade; a idéia de que ser um facilitador é ser um professor bonzinho, que atende todas as vontades dos alunos; a idéia de que os alunos da escola "deveriam ser mais responsáveis" e junto com isso uma postura imediatista dos profissionais que estavam esperando que os alunos cumprissem automaticamente as regras que foram colocadas no cartaz; O Espaço Permanente de Diálogo foi fundamental para que pudéssemos fazer uma reflexão mais profunda sobre os modelos mentais e problemas práticos suscitados pela implantação do pacto. Sem uma rotina constante de diálogo acreditamos ser impossível a transformação do pacto numa cultura realmente enraizada na escola.

Conclusões

Alunos da EE Moradias Monteiro Lobato e cartaz dos combinados

Com este trabalho, aprendemos que o Tá Combinado é uma forma muito interessante de promover o espírito coletivo, fazendo com que a linguagem dos profissionais da escola seja mais uniforme – não no sentido de padronizada - mas mais sintonizada. Ou seja, cada vez mais os profissionais tendem a compartilhar e praticar os mesmos princípios, potencializando o efeito da educação na vida dos alunos. Aprendemos também que os modelos mentais são realmente o ponto fundamental: sem uma mudança na maneira como pensamos a educação, a prática dificilmente se consolida. E aprendemos que o Tá Combinado é muito mais do que uma estratégia para lidar com a indisciplina, mas uma verdadeira filosofia, uma nova cultura educacional, que precisa ser debatida e incorporada pelas nossas escolas. Precisamos romper com as velhas amarras do tradicionalismo e buscar novos modelos para construir uma educação que tenha sentido e significado e que seja transformadora na vida dos alunos e gratificante para os profissionais.

As dificuldades são inúmeras e as resistências dignas de desistência, mas a aposta na mudança também é muito grande. Os profissionais que compraram a idéia têm sido a razão dos frutos que temos colhido, pois são tão confiantes e capazes, que aos poucos, mesmo os mais resistentes, estão sendo envolvidos.

Ainda é muito cedo para alardear um grande êxito, pois faz apenas um semestre que a escola tem investido na idéia, mas os casos de sucesso já "pipocam" aqui e ali. Sabemos que tudo é uma questão de tempo e persistência.

Se em 1 ano conseguimos tudo isso, daqui há alguns anos estaremos ainda melhores, pois sabemos que a chave do sucesso é a paciência e a perseverança!

Equipe operacional da APNVB

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