Identidade: Semelhanças e diferenças?
Supomos ser fácil responder sobre quem somos, no entanto, muitos cientistas sociais ocupam-se do tema identidade como pesquisa, assim como em nosso cotidiano remetemo-nos constantemente a ele. Sabemos que muitos papéis são definidos em função de uma relação com outras pessoas: filho/pai; professor/aluno. Existem, também, identidades ocultas, que não são reveladas para todos (ex. ser criminoso, espião). Definimo-nos, muitas vezes, através de uma narrativa, uma biografia, que inclui um autor e vários personagens. Somos nós, ao mesmo tempo, autor, narrador e personagem de nossa própria história. Portanto, às vezes, podemos esconder-nos por trás de personagens, ou revelarmo-nos através deles.
Nossa identidade não é um dado pronto e acabado. E, diante de mudanças, perguntamos se tornamo-nos algo que já éramos ou transformamo-nos em algo novo: "Podemos imaginar as mais diversas combinações para configurar uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una. [...]" (Ciampa, 1984, p. 61) Ao percebermo-nos ameaçados nessa unidade, tememos esse outro, essa mudança. E, por mais que elenquemos diversas características, não conseguimos dar conta de toda a nossa identidade.
O reconhecimento de um eu pela ação
Ao procurarmos saber quem é alguém, buscamos informações que julgamos relevantes e verdadeiras para conhecê-lo. Algumas das informações vêm na forma de substantivos: nós nos tornamos e somos reconhecidos por um nome. Este nos diferencia dos outros, mas nos iguala ao pertencermos a uma família.
Vamos nos igualando e nos diferenciando de várias pessoas, grupos etc. Se minha identidade é refletida pela identidade do outro, se faço parte de grupos, minha identidade também é coletiva. Enquanto tal, posso ser aluno, o que não diz de uma condição imutável. Nos grupos, sou reconhecido pelo que faço: eu me torno um verbo. Sou produto de uma prática. Diante da pergunta "quem sou eu?", a resposta vem em forma de dado, ela representa a identidade, mas existe seu processo de produção. Isto é, mesmo que me torne um substantivo (amiga), só sou reconhecida como tal se exerci um fazer (estive presente dando apoio), se me fiz verbo.
A individualidade, apresentada ao sabermos quem somos, é um fenômeno social que resulta da constituição de um indivíduo representado anteriormente. Na relação mãe/filho já se manifestam expectativas sobre ser mãe e ser filho, as quais se concretizam e se modificam no estabelecimento das interações. "Ou seja, é pressuposta uma identidade que é re-posta a cada momento [...]" (op. Cit., p. 66) Nós re-atualizamos nossa identidade, mesmo adotando-a já como resultado: tornei-me professor e posso assim ser considerado, mas é exercendo a docência que sou professor.
Desta maneira, acabamos não localizando historicamente a produção dessa identidade. "A re-posição da identidade deixa de ser vista como uma sucessão temporal, passando a ser vista como simples manifestação de um ser idêntico a si-mesmo na sua permanência e estabilidade. "(op. Cit., p. 66-67) A mesmice aparece como algo natural e não-reposto, atualizado: define-se um pai a partir da concepção do filho e espera-se que o seja semelhante à paternidade exercida pelos que o foram previamente. Ao se tornar pai, é "negada" a sua posição de filho, uma vez que se permanecesse como filho, a diferença não se estabeleceria com seu próprio filho.
Um eu na trama de vários eus
Apesar da totalidade múltipla, a cada momento expressamos uma das determinações. No entanto, não somos vistos apenas como uma delas, aparecemos, sim, como representantes de nós mesmos. "Desta forma, estabelece-se uma intrincada rede de representações que permeia todas as relações, onde cada identidade reflete outra identidade, desaparecendo qualquer possibilidade de se estabelecer um fundamento originário para cada uma delas." (op. Cit., p. 67) E, assim, é refletida uma estrutura social: "a identidade que se constitui de um permanente processo de identificação aparece como dado e não como um dar-se constante que expressa o movimento social." (op. Cit., p. 68).
A História se dá pela auto produção humana: somos participantes de uma sociedade, somos a humanidade.
Nesse sentido, [...] eu contenho uma infinitude de humanidade (o que me faz uma totalidade), [...] de tal modo que a cada instante de minha existência como indivíduo é um momento de minha concretização (o que me torna parte daquela totalidade, em que sou negado (como totalidade), sendo determinado (como parte); assim, eu existo como negação de mim-mesmo, ao mesmo tempo que o que estou-sendo sou eu-mesmo." (p. 68-69).
Na dinâmica de representações, de re-apresentações, a identidade vai se constituindo em metamorfose através do desempenho de papéis, da re-posição de mim e da negação, aparecendo como um outro eu, um outro outro. Ou seja, identidade não é mais o ser idêntico a si mesmo. Enquanto unidade múltipla e contraditória, é exercida a mudança através das diversas possibilidades do ser (contraposição ao vir-a-ser pré-estabelecido da semente, por exemplo). A existência humana não é garantida a priori: são várias as possibilidades que se concretizarão através do ser social e histórico.
O idêntico a si mesmo que admite a transformação
Em virtude da mudança ser intrínseca ao movimento chamado vida, nossa identidade também é reflexo desta dinâmica. Mudamos nossa concepção de eu no decorrer de nosso desenvolvimento evolutivo (criança, adolescente, adulto, idoso). No entanto, assusta-nos o desequilíbrio causado pelas mudanças, requerendo novas assimilações e acomodações. Não nos conhecemos em nossa totalidade; por vezes, escolhemos como nos apresentarmos diante de determinadas situações, outras vezes, não estamos cientes de nossas re-apresentações. Portanto, não temos um controle totalmente consciente sobre o modo como nos constituímos: somos produtores e produzidos por uma realidade, a qual diverge dependendo do contexto, da história.
A História se dá pela auto produção humana: somos participantes de uma sociedade, somos a humanidade.
Nesse sentido, [...] eu contenho uma infinitude de humanidade (o que me faz uma totalidade), [...] de tal modo que a cada instante de minha existência como indivíduo é um momento de minha concretização (o que me torna parte daquela totalidade, em que sou negado (como totalidade), sendo determinado (como parte); assim, eu existo como negação de mim-mesmo, ao mesmo tempo que o que estou-sendo sou eu-mesmo." (p. 68-69).
Na dinâmica de representações, de re-apresentações, a identidade vai se constituindo em metamorfose através do desempenho de papéis, da re-posição de mim e da negação, aparecendo como um outro eu, um outro outro. Ou seja, identidade não é mais o ser idêntico a si mesmo. Enquanto unidade múltipla e contraditória, é exercida a mudança através das diversas possibilidades do ser (contraposição ao vir-a-ser pré-estabelecido da semente, por exemplo). A existência humana não é garantida a priori: são várias as possibilidades que se concretizarão através do ser social e histórico.
O idêntico a si mesmo que admite a transformação
Em virtude da mudança ser intrínseca ao movimento chamado vida, nossa identidade também é reflexo desta dinâmica. Mudamos nossa concepção de eu no decorrer de nosso desenvolvimento evolutivo (criança, adolescente, adulto, idoso). No entanto, assusta-nos o desequilíbrio causado pelas mudanças, requerendo novas assimilações e acomodações. Não nos conhecemos em nossa totalidade; por vezes, escolhemos como nos apresentarmos diante de determinadas situações, outras vezes, não estamos cientes de nossas re-apresentações. Portanto, não temos um controle totalmente consciente sobre o modo como nos constituímos: somos produtores e produzidos por uma realidade, a qual diverge dependendo do contexto, da história.
Podemos, sim, conhecermo-nos e abarcarmos de um modo mais saudável as transformações (objetivas e subjetivas) ao tomarmos consciência das determinações sobre nossas escolhas, assim como da responsabilidade sobre estas. Se na adolescência não houver a possibilidade de constatarmos nossas afinidades, nossas limitações, ficará difícil responsabilizarmo-nos por nossas opções, quer sejam profissionais, sexuais, de valores. Acreditamos na aprendizagem, na exposição a condições que propiciem reflexão para ampliar nossas possibilidades, para termos acesso a alternativas.
Estas premissas fundamentam a opção pelo trabalho em grupo, onde se proporciona um ambiente de diferenciação e identificação de vários eus e outros, do um e do nós. A experiência em grupo, com a problematização de nosso posicionamento perante as visões de mundo e de homem, prioriza a negociação destas versões da realidade e a possibilidade de criação de alternativas ao que nos angustia, como a questão da violência. É em grupo que se potencializa a conscientização do ser e do estar: por mais desanimados que estejamos (situação financeira, preocupações com filhos), não necessariamente o sejamos. Esta relação é constantemente confundida e expressa por julgamentos pouco criteriosos, como os rótulos (conceitos aplicados à atitudes), o preconceito. Neste momento, acabamos por adotar como verdade um comportamento isolado, negando a complexidade do ser e a condição de transformação.
Os vários eus que constituem a unidade e a contradição de uma identidade
Segundo Moscovici (2001) , são quatro as áreas que configuram nosso eu:
a) eu aberto: é a área conhecida por mim e pelos outros, onde meu comportamento varia conforme a estimativa do que seja correto em determinado contexto. Se sou mãe, certamente é por ter filhos e exercer a função de mãe, pode ser zelosa, coruja.
b) eu cego: este não é reconhecido por mim, mas conhecido pelos outros. Esta é a área mais difícil de conhecermos, uma vez que acabamos por criticar no outro o que é nosso. É a velha história de exigir que meus filhos sejam organizados quando em casa não é o exemplo que possuem.
c) eu secreto: é conhecido por mim, mas não pelos outros. A importância desta área reside na possibilidade de sua ampliação refletir diretamente no aumento da compreensão e cooperação nos trabalhos em grupo. Enquanto mãe não posso admitir que detesto serviço de casa, mas sempre arranjo desculpas de que não tenho tempo.
d) o eu desconhecido é onde residem as potencialidades latentes, algumas das quais podem se tornar conscientes através do feedback do grupo. Meus próprios filhos podem passar a questionar minha incoerência entre o dizer e o fazer.
A identidade sendo constituída a partir da aprendizagem em grupo
Nos encontros dos Grupos de Aprendizagem ficam explícitas as diferenças em relação ao conhecimento de suas áreas: alguns professores admitem não quererem receber feedback para não se deparar com algumas características suas das quais não quer saber. Outros fazem distinção entre as diferentes maneiras de se portar conforme o grupo social em que está - família, colegas de trabalho, amigos. E, muitos, acabam revendo suas impressões sobre os colegas, ao terem oportunidade de partilhar alguns momentos a mais do que os profissionais. Todos concordam o quão proveitoso é compartilhar suas inquietudes em grupo, conhecendo também o que aflige os colegas e valorizando a convivência em grupo. Esta experiência os fortalece, permitindo-os conhecerem-se a si mesmos e aos outros.
Em consonância aos outros temas abordados – a saber, agressividade, comunicação, percepção e sentimentos – percebe-se um movimento crescente de construção de consciência sobre a existência de um, que diferenciado de outros eus, pode constituir um nós, no grupo, e o quanto nossa identidade é social, coletiva. Neste sentido, o senso de responsabilidade sobre a atuação profissional e a tomada de decisões perante seus grupos de alunos e colegas aumenta. Somos referência para a constituição da identidade de muitas pessoas e, enquanto tal, também podemos ser instrumento para calcar mudanças nessas identidades. O processo privilegiado para tal movimento é a aprendizagem, que se materializa na convivência em grupo.
Nós, adultos, ainda somos acrescidos de um grau de responsabilidade ao tornarmo-nos modelo de comportamento para muitos com os quais vivemos. Independente de sermos tomados como alvo de identificação, no sentido de querer ser igual, também podemos ser o modelo ao qual não se quer assemelhar-se. Portanto, querendo nós ou não, afetamos e somos afetados por outras identidades.
Podemos constituir referência para atitudes não-violentas, na medida em que nos empenhamos em também aprender alternativas para lidar com os contextos propícios à violência. Se esta existe, é também responsabilidade nossa. Então, a mudança depende de nós.
