Não-Violência - Lição de Paz nas escolas Lição de paz nas escolas

Sobre a Cultura de Paz

Percepções e suas facetas

Você olha para uma árvore no jardim de sua casa, sente-se tranqüilo por tal observação, percebe-se mais sereno. Uma outra pessoa também olha para a mesma árvore, e imagina como suas folhas precisam ser podadas. Uma terceira pessoa olha para a árvore, e pensa como ela encontra-se só, sem outras árvores ao seu redor. Talvez, outra pessoa olhe e admire o ninho de pássaros em um dos galhos da árvore ou apenas colha um de seus frutos maduros.

Uma mesma árvore e tantas reações, percepções diferentes. Sentimentos, imaginações, preocupações, pensamentos e ações direcionados a um mesmo estímulo. Tantas outras poderíamos imaginar ou citar. Assim é a percepção humana. Sob diferentes formas e ângulos, um mesmo estímulo pode ser percebido. Alguns outros exemplos de estímulos: um olhar, um gesto, uma frase, a entonação da voz, uma atitude... Supondo inúmeras possibilidades, podemos refletir sobre a questão da percepção humana e suas influências em nossos relacionamentos.

Perceber algo nos causa sentimentos, pensamentos e conseqüentes reações. Sentimentos geram percepções; ações geram novas percepções. É um processo cíclico que se retroalimenta. No exemplo da árvore, o estímulo "árvore" levou a determinada pessoa a pensar em seus filhos e sentir saudade.

Pode-se reagir com violência quando algo que percebemos nos causa raiva. Portanto, estudar como o ser humano percebe a si próprio, e ao mundo ao seu redor, é base para entender a questão da violência. Discutir-se-á, neste ensaio, a influência de nossa percepção sob nossos comportamentos e como isto se relaciona à questão da violência.

A forma como percebemos uma situação, um objeto, uma pessoa ou um problema está essencialmente relacionada à nossa possibilidade de percebê-lo. Talvez, a primeira pessoa que percebeu a árvore (no exemplo acima), precisasse encontrar algo para tranqüilizá-la; a segunda está possivelmente preocupada com tarefas domésticas; a terceira sentia-se um pouco só; a quarta sentia saudade dos filhos, naquele momento, diferente da quinta pessoa que sentia fome. E podemos nos perguntar: existe a melhor ou mais correta forma de observar e perceber uma árvore?

Talvez, alguém, diferente da primeira pessoa, não acredite que a árvore possa fazer uma pessoa se tranqüilizar. Quem pode afirmar o que é mais verdade? Para as diferentes opiniões e percepções, deve sempre haver um espaço para reflexão e não para certezas absolutas.

Refletir como se percebe leva ao questionamento do que é verdade ou realidade. A forma como filtramos a realidade - formando nossas percepções - depende de nossas experiências prévias. Mas, tendemos a assumir nossas percepções como "verdade". Por exemplo, antes de conhecer alguém, já podemos imaginar algo sobre essa pessoa, a partir de alguma coisa que nos foi passada anteriormente. Ao conhecê-la, formamos nossas "primeiras impressões", somado às informações anteriores. E estas impressões podem ser positivas para ambos os lados (o que facilitará a comunicação), positiva apenas para um dos lados (o que pode dificultar a comunicação) ou negativa para ambos os lados (o que dificultará o relacionamento como um todo). Nossos relacionamentos são influenciados pelas simpatias e antipatias. E a percepção que um tem do outro está diretamente relacionado ao seu próprio modo de ver a situação, influenciado pelo estímulo que recebe. Seus pensamentos, sentimentos, ações sobre aquela pessoa são uma soma de conteúdos próprios, experiências anteriores e as reações da outra pessoa.

Quando simpatizamos com alguém, não nos damos conta de que esta simpatia pode estar sendo gerada, porque algo nesta pessoa nos transmite uma sensação agradável que, de alguma forma, já vivenciamos: um gesto, o jeito de falar ou interagir, uma palavra, um cheiro. Da mesma maneira, se antipatizamos com alguém, revivemos uma experiência desagradável em contato com essa pessoa. Talvez, estes motivos nunca nos sejam revelados ou se tornem conscientes, mas nos influenciam.

Modificando nossa maneira de perceber

Até o momento, discutimos sobre a multiplicidade de percepções, diferenciamos realidade de percepções e refletimos sobre o que influencia nossas percepções e suas diferentes possibilidades. E, por nos darmos conta de que nem sempre a nossa percepção sobre algo pode ser a mais pertinente, podemos buscar modificá-la. Mas como este processo é possível?

Dois principais aspectos podem auxiliar na modificação de nossas percepções sobre algo:

a) Obter mais informações sobre a pessoa ou a situação.

b) Modificar a nossa forma de olhar e dar novos significados para uma mesma pessoa ou situação.

Em relação ao primeiro item, podemos pensar em uma situação bastante comum em sala de aula. Um aluno age de determinada maneira. Antes de reagir, o professor pode adquirir mais informações sobre este aluno e pensar sobre o que pode estar influenciando-o a tomar tal atitude. No segundo item, além deste professor obter mais informações sobre tal aluno, ele pode repensar sua crença sobre este aluno (ex: "ele age 'assim' pois tem problemas na família", "ele é assim mesmo, não vai mudar"; "só podia ser ele" etc); pode olhar sob um outro ângulo. A possibilidade de perceber e compreender que algo que se imaginava ou supunha é completamente diferente, leva à possibilidade de modificar esta percepção e suas conseqüentes reações. No caso, imaginava-se que por problemas familiares, por exemplo, este aluno agia de um jeito. Constatou-se que o motivo era outro, o que muda a percepção sobre este aluno e a situação em questão.

Um outro exemplo é a relação entre duas pessoas que se desentendem e se criticam. Acreditam que são diferentes e podem até menosprezar o "rival". Quando surge uma oportunidade de se exporem e se conhecerem (portanto, obtendo mais informações sobre os outros), têm a oportunidade de modificar a maneira como se comportam e se percebem, descobrindo novas maneiras de se identificarem. Uma garota relata o caso de lhe apelidarem por uma característica física e que, de início, lhe causava raiva. Quando percebeu que esta era uma forma dos outros colegas se aproximarem e brincarem com ela, deixou de se irritar e passou a gostar do apelido que não tinha um tom pejorativo, mas identificava a garota.

O que podemos observar em nós mesmos?

Falamos, anteriormente, da inter-relação entre pensamentos, sentimentos e ações. Nossas ações e reações estão diretamente relacionadas às nossas percepções, sendo elas positivas ou negativas. Discutindo sobre isto, um grupo de professores citou a conquista do pentacampeonato pela seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo, como evento que gerou, nas mesmas pessoas, felicidade, alegria, motivação e disposição (os brasileiros estavam "mais leves" para enfrentar a rotina diária), como revolta e indignação (neste mesmo momento, tarifas públicas aumentaram e a população, em geral, omitiu-se frente a estes fatos). Enfim, uma mesma situação gerou diferentes percepções sob a ótica das mesmas pessoas, ocasionando diversas reações. Percepções tendem a alimentar sentimentos e reações.

Passemos, então, a analisar alguns dos mecanismos que podem reforçar nossa visão "negativa" sobre determinada situação. Alguns deles: rotular; exagerar; demandar; "acreditar em telepatia"; "ser vidente".

Rotular

O rótulo é uma das formas como identificamos algo ou alguém. Mas, muitas vezes, este rótulo torna-se prejudicial para quem o "carrega", além de simplificar o que está sendo identificado, isolando as demais características que o circundam. Quando dizemos, por exemplo, que "aquela turma é bagunceira", podemos estar isolando todas as demais características desta turma (tanto positivas, quanto negativas), e auxiliando para que os alunos se identifiquem com este rótulo, correndo o risco de que nem os próprios alunos desta turma possam se perceber como diferentes de "bagunceiros". Como será possível trabalhar com esta turma, a fim de que se modifique, sendo que nem os próprios alunos se vêem diferentes? Podemos pensar, também, no fato de que nada, nem ninguém é apenas como podemos percebê-lo e nominar (o que se costuma fazer de forma enfática, como por exemplo, "tal pessoa é x ou y"). Este tipo de observação costuma marcar e simplificar, impossibilitando novas formas de percepção ("tal pessoa está x ou y"), o que possibilita mudanças.

Você pode se definir com um único adjetivo? Quando paramos para pensar em nós mesmos, nos damos conta de que somos formados por uma série de sentimentos e pensamentos, dos quais muitos desconhecemos e não temos controle. Quem dirá o universo que constitui a pessoa ao nosso lado, o de nossos colegas de trabalho, de nossa família ou turma. É uma infinidade de possibilidades que nos rodeiam e que devemos levar em consideração na hora de nos definirmos e ao outro.

Exagerar

É acreditar que um evento tem maior importância do que o normal. E para este tipo de mecanismo, vale ressaltar uma boa contrapartida - o bom humor! Quantos de nós chegamos ao fim do dia - ou da semana, estressados, cansados e sem muita paciência e, por qualquer motivo, descarregamos nosso cansaço em um evento que, em outro momento, talvez relevássemos e até pudéssemos rir do ocorrido. Mas neste momento de cansaço, acabamos por perceber tal situação como problemática ou séria em demasia.

Mas, não é apenas relevando o ocorrido que modificamos nossas percepções. Podemos continuar acreditando que, por exemplo, a pessoa com quem marcamos um encontro atrasou-se por irresponsabilidade própria, quando um acidente no caminho pode ter sido o fator que a levou a atrasar-se. Podemos fazer um escândalo ou ficar exageradamente chateados, podemos relevar acreditando ainda na irresponsabilidade, ou podemos levar em consideração as informações que obtivemos e modificar nossa percepção sobre este atraso.

Demandar

É acreditar que o que queremos que aconteça sobre determinado evento é o que todos devem fazer e, ainda, é esperar isto das pessoas. Por exemplo, eu gostaria muito que todos os cidadãos, ao ver idosos nos ônibus, tivessem consciência e tomassem a iniciativa de ceder o lugar. Mas, toda vez que vejo isto não acontecer, automaticamente me irrito e tendo a criticar e agredir.

Eu posso pensar que todos são educados e ensinados para isto. Esta é a minha percepção. Mas, eu não posso demandar que todos os demais também pensem desta maneira, de tal forma que outra crença não seja aceita.

Acreditar em telepatia

É imaginar que se sabe o que o outro está pensando, incluindo as razões que o levam a pensar nisso. Quantos de nós já não nos preocupamos quando fomos convocados à uma reunião profissional e, antecipadamente, imaginamos saber sobre o que se trata desta reunião, quando acontece exatamente o contrário do que imaginávamos? Podemos pensar que seremos criticados e nos surpreendemos quando somos parabenizados ou vice-versa. Outra situação é imaginar que alguém não gosta de mim e, ao longo do tempo, tudo o que acontece parece corroborar com esta idéia.

Até que temos a chance ou de expor o que pensamos ou de obter informações que demonstram que o que achávamos não era o que a outra pessoa sentia e pensava. Nos damos conta que não é possível "adivinhar" o que o outro está pensando e dar a chance de que ele possa se expressar pode evitar alguns mal-entendidos.

Ser vidente

Como "acreditar em telepatia", é acreditar que se sabe como o outro vai agir, o que vai acontecer, prevendo o futuro. Este mecanismo é bastante comum no cotidiano escolar, quando acreditamos que determinado professor, aluno ou pai vai agir de certa forma e, de antemão, já nos defendemos, criticamos ou nos fechamos, não sendo possível perceber o que esta pessoa quer manifestar. E fechados, é muito mais difícil aceitarmos que esta pessoa pode ser diferente do que imaginávamos neste momento.

A nossa tendência é não querer perceber esta outra possibilidade, até porque, se isto ocorrer é como se nós estivéssemos errados (nos damos conta de que não conhecemos o que achávamos conhecer tão bem).

Mas, não será preferível errarmos a nossa possível adivinhação e darmos chance de nos surpreender!?

No momento em que nos damos conta de que utilizamos um destes mecanismos, podemos nos questionar se a forma como está se percebendo é a mais "certa" ou a única forma possível. Questionando sobre o que achamos ser verdade, podemos pensar mais em probabilidades; ou seja, percebe-se de tal forma, mas pode ser diferente.

Nem sempre é possível levar tudo isto em consideração e é importante respeitar quando assim o for. Treinar tais reflexões em pequenas situações diárias, auxiliam a enfrentar as situações mais complexas. O aprendizado se dá ao viver, experimentar, errar, internalizar e, novamente, vivenciar.

Mas como se dá a percepção?

Percepção é captação de estímulos. Em seguida, nomeiam-se estes estímulos como forma de interpretá-los e dar-lhes significados. A percepção é uma representação (já com os significados) dos estímulos. Quando crianças, é através da nomeação dos adultos que significamos os objetos, sentimentos, e pessoas a nossa volta. O adulto nomeia um objeto (ex: bola). O que captamos como "bola" passa a ser um novo aprendizado. Com o tempo, repetimos a palavra e depois podemos generalizá-la, para tudo o que, para nós, for parecido com o estímulo "bola".

E quando nos for apresentado outras "bolas" saberemos compará-las e diferenciá-las de outros estímulos que não sejam parecidos. Com objetos a idéia é mais simples do que com sentimentos e pensamentos. Por exemplo, quando nos machucamos quando crianças, a mãe pode preocupar-se excessivamente, o que pode nos fazer perceber que machucados são preocupantes. Esta torna-se a minha percepção.

Ao longo de minha história e de minhas experiências, poderei constatar este pensamento e sentimento com relação a machucados, ou poderei questioná-los, a fim de criar a minha própria percepção sobre o assunto. Pode ser que eu passe a acreditar que machucados não são tão preocupantes assim. Mas, são as experiências de minha vida que me farão refletir sobre minhas percepções e, eu me colocar disponível a refletir sobre elas (ou não) é uma decisão (sempre lembrando dos mecanismos que dificultam modificarmos nossas percepções, explicado anteriormente).

Um exemplo atual da dificuldade em se modificar o significado que se tem sobre determinada coisa, foi a "aparição" de formas em cores em algumas janelas no país e a significação destas aparições como imagens de Nossa Senhora. A partir do momento em que as pessoas passaram a acreditar na percepção que tinham daquela imagem, tornou-se complicado questionar a veracidade deste possível milagre. Este fato é acrescido da necessidade atual de pessoas acreditarem em manifestações milagrosas, explicada por muitos como uma carência de figuras que provoquem fé e credibilidade. De qualquer forma, podemos aproveitar este exemplo para refletir sobre o processo de percepção e as dificuldades em se modificar o que acreditamos ser uma percepção real, verdadeira.

Qual a relação entre percepção e violência?

Resumindo o que se disse até então, as informações com base nas quais vamos formar nossas opiniões, alimentar sentimentos, tomar decisões e agir, provém de nossas percepções. As percepções são diferentes da realidade; são formas de captar a realidade. As formas como percebemos as coisas são filtradas por nossa história de vida, e por isso pessoas podem perceber os mesmos acontecimentos de formas diversas. Vimos, também, que há uma inter-relação entre percepções, sentimentos e ações (positivas ou negativas). E a forma como percebemos o mundo a nossa volta, e a nós mesmos, pode influenciar como percebemos situações de violência.

É necessário refletir como a simples percepção, diferente de uma mesma situação, pode ocasionar conflitos. Podemos pensar em como, por exemplo, costumamos reagir quando percebemos que a opinião de outro diverge da nossa. Podemos ficar irritados, impacientes, podemos tentar convencer o outro a todo custo de que como percebemos é o certo etc. Estas conseqüências podem gerar conflitos.

Um exemplo pode ser o de determinado professor relatando que, por acreditar que seus alunos estavam sendo "malandros" com ele, "como de costume", não acreditou no que eles lhe diziam, gerando uma situação conflitante. Posteriormente, este professor veio a constatar que o que seus alunos lhe disseram, era o que de fato havia ocorrido. Em um primeiro momento, este professor "rotulava" este alunos de "malandros", provavelmente devido a outras experiências que vivenciou desta forma. Acreditou que a sua percepção era a única possível, estabelecendo um diálogo com estes alunos (que passou a ser uma discussão), sem flexibilizar este rótulo e acreditar que poderiam existir outras possibilidades.

Da mesma forma, os alunos poderiam estar também "rotulando" este professor, não acreditando que ele poderia confiar no que diziam (provavelmente também por experiências anteriores) e, de alguma forma, "demandaram" deste professor uma postura que eles desejavam (a de professor compreensivo), o que não foi correspondido. Enfim, ambas as partes tiveram percepções que influenciaram a discussão e o desentendimento; tinham expectativas de que a sua percepção da situação era a única e verdadeira.

Quando se pensa em violência, subentendem-se conceitos como conflito e percepções. Diferentes percepções podem gerar situações conflitantes e de violência. O PNV pretende, em suas atividades na escola com professores, pais e alunos, auxiliar na reflexão sobre como se está percebendo e como se está reagindo a estas percepções, a fim de que possam melhor se instrumentalizar para as vivências diárias dentro e fora da escola.

Existe um problema. Como este problema está sendo observado pelos envolvidos?

Ele é um problema para todos os envolvidos? Quem mais se incomoda? Como ele está sendo percebido? Como ele está sendo resolvido? De que forma podemos olhar para a mesma situação? Voltando ao nosso primeiro exemplo, a árvore pode ser estímulo para tranqüilizar, preocupar, lembrar, matar a fome ou sentir-se só. De que forma você está olhando a árvore? E por quê?

Voltar