Projeto Não-Violência Lição de paz nas escolas

Sobre a Cultura de Paz

Um pouco vilões... um pouco mocinhos...

Mais policiamento, câmeras de vídeo nas ruas, muros mais altos, cercas elétricas, armamento da população, aumento das vagas nas penitenciárias, polícia mais preparada, incremento do rigor da lei (com redução da maioridade penal, prisão perpétua e pena de morte). Essas são algumas soluções que vêm sendo debatidas e/ou colocadas em prática para tentar resolver o problema da violência no Brasil e se chegar à paz tão almejada. Sobre isso é preciso que façamos uma séria e profunda reflexão.

As soluções apresentadas podem se resumir a duas idéias fundamentais: "punir com rigor" e "proteger o cidadão". E essas duas soluções se baseiam num único princípio: "violentos são os outros!". Sim, quando falamos em punir com rigor através de leis mais severas, polícia e armamento, estamos nos referindo aos supostos criminosos malvados que estão ameaçando nossas vidas ou nossas posses. É claro que nenhum de nós, cidadãos de bem, gostaria de ser punido – com ou sem rigor... E quando falamos em proteger a nossa pele através de muros, cercas, câmeras e armas, estamos nos referindo à proteção contra estranhos que podem nos atingir a qualquer momento com uma onda incontrolável de violência!

Em síntese: violentos são os outros, nós não temos nada com isso, somos cidadãos de bem! Esta concepção, na verdade, está muito próxima do pensamento infantil, dos contos de fada e dos filmes norte-americanos que apresentam o mundo dividido entre os bons e os maus, sendo que os primeiros devem ser protegidos e os segundos eliminados. É o chamado pensamento maniqueísta. De um lado os criminosos, seres maléficos e perversos, e de outro os cidadãos de bem, justos e inocentes.

Será que podemos pensar no ser humano desta forma, divido em dois grupos? Será que a maioria dos que cometem crimes são, de fato, tão maus assim? Será que nós, cidadãos de bem, somo tão "de bem" quanto pensamos ser? Será que, sob certas condições, não somos capazes de cometer crimes que hoje condenamos? Será que, mesmo sem roubar ou matar, não podemos cometer outros tipos de violência ainda piores contra nosso próximo?

Muitas vezes não assaltamos ninguém, mas roubamos a dignidade e o amor próprio das pessoas usando palavras que humilham, rotulam, desencorajam, ofendem... Muitas vezes não portamos armas de fogo, mas usamos as armas da indiferença, do preconceito, da falta de solidariedade e do individualismo – armas que podem não destruir o corpo, mas têm o poder de aniquilar a esperança e ferir profundamente a alma humana.

Queremos que o problema da violência se resolva como por um passe de mágica, através de medidas de repressão e proteção... Porém, quando pensamos um pouquinho e percebemos que a violência não está apenas "lá fora" mas também, e principalmente, dentro de nós, compreendemos que é preciso muito esforço e trabalho para sermos pessoas mais pacíficas todos os dias. Compreendemos que não basta punir os criminosos, mas recuperar o criminoso que habita dentro de nós. Compreendemos que precisamos de proteção contra os outros, mas precisamos mais ainda de proteção contra nossa própria artilharia interna, que além de ferir nosso próximo pode gerar estilhaços que se voltam contra nós.

Quando éramos crianças achávamos que existiam os vilões e os mocinhos... mas hoje precisamos nos permitir dar um passo a mais para enxergar algumas verdades: ninguém é completamente vilão ou completamente mocinho! Ninguém nasce vilão, mas todos aprendemos um pouco sobre o mau, com uma educação que em algum momento foi distorcida. Da mesma forma, ninguém nasce "mocinho", mas todos aprendemos alguma coisa sobre a bondade com a parte positiva da nossa educação. Portanto, nenhum de nós podemos nos considerar cidadãos de bem como gostaríamos, mas todos temos o potencial de sermos pessoas melhores do que somos hoje! Contudo isso só vai acontecer quando assumirmos a parcela de responsabilidade que nos cabe e trabalharmos juntos para nos reeducarmos, em vez de ficar apenas exigindo a paz, acreditando na ilusão de que um dia estaremos totalmente protegidos e seguros contra nossos inimigos invisíveis.

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