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Sobre a Cultura de Paz

VIOLÊNCIA: Uma revisão necessária

"Violência gera violência – este é um truísmo que por mais que seja anunciado, a ponto de torná-lo um lugar comum ainda não parece ter sido assimilado pelos diferentes extratos sociais em que se dispõe a humanidade". Luiz Carlos Osório

A violência está em destaque. Toda vez que ligamos a TV, o rádio, abrimos um jornal ou uma revista certamente encontramos alguma notícia que nos faz pensar "Quanta violência, onde é que isso vai parar?". Cada vez mais, os meios de comunicação deixam explícito que, onde quer que estejamos, independente de raça, idade, sexo, grau de instrução ou classe social, estamos vulneráveis à violência, obrigando-nos a constatar que ela invadiu todas as áreas da vida e das relações do indivíduo.

Este movimento, ao mesmo tempo que traz à tona essa questão tão séria, pode propiciar uma visão distorcida da realidade. O uso excessivo e indiscriminado de conceitos como agressividade, violência e agressão, acaba por banalizá-los, e qualquer coisa que não agrade ou não esteja de acordo com o que as pessoas querem, pode ser considerado "uma violência". Além disto, o grande destaque que se dá a acontecimentos extremos na mídia, sem a contextualização necessária do que está sendo noticiado com todos os fatores que propiciaram a eclosão da violência, contribui para que esta seja tida como algo que acontece apenas em situações extremas e que ela seja praticada por pessoas "desumanas", "más", "doentes", ou "loucas", quando isto está longe de ser a realidade.

A preocupação com a expressão "macro" da violência na sociedade atual (essa que aparece no crime organizado, na corrupção generalizada dos diversos órgãos públicos, nas guerras entre países, nas relações de dominação exercidas pelos países desenvolvidos etc.) e todas as ações que vêm sendo realizadas pelos mais diversos grupos da sociedade, no sentido de denunciar essa situação e exigir atitudes eficazes que a solucionem, é evidente e necessária. Mas, se destacarmos e nos preocupamos apenas com esse aspecto da violência, corremos o risco de deixar de lado a "violência nossa de cada dia", aquela que cometemos em nossa casa, escola, trabalho, com nossos familiares, amigos, vizinhos e com nós mesmos. Estas expressões "micro" da violência parecem inofensivas, se comparadas à violência que a mídia noticia, mas, em sua essência, elas podem ser tão nocivas quanto.

Uma reflexão sobre as causas da violência, como ela se manifesta e quais suas conseqüências não pode ser reduzida a explicações superficiais e simplistas que levam a ações imediatistas, que podem até maquiar, mas não chegam a transformam suas verdadeiras causas. Essa reflexão é o primeiro passo na direção à mudanças e possibilita que cada um de nós comece por fazer a sua parte.

Alguns conceitos

Por ser objeto de estudo de muitas pessoas, em várias áreas do conhecimento, podemos encontrar diferentes definições do que seja violência. Cada uma delas destaca os aspectos que são mais relevantes àquela área, por exemplo, na meteorologia, uma chuva pode ser considerada violenta, dependendo da quantidade de água, do tempo que ela durou, se ela causou enchentes etc.; no esporte, uma jogada pode ser considerada violenta se causar algum dano físico grave a algum dos jogadores. De uma maneira geral, o conceito de violência está sempre relacionado a uma ação (que pode ser um comportamento, fenômeno natural, um acontecimento), e aparece ligado aos conceitos de agressividade, agressão, força usada contra a vontade de alguém, ou sentida de maneira intensa.

A raiz da palavra agressividade, segundo Osório (2000), vem do latim: 'ad+gradior', onde 'ad' significa "para frente" e 'gradior", "movimento". Pode-se afirmar que a agressividade é "um movimento em direção de", caracterizada pelo componente ativo, pela tendência a ação. Desta maneira, a agressividade faz parte de todo o ser vivo e é fundamental à sobrevivência, pois é aquilo que faz agir. Porém, como as ações podem ter propósitos e conseqüências destrutivas (no sentido de não preservarem a vida e o bem estar individual e social), alguns autores propõem que, nestes casos, o termo agressão seja utilizado, e que, quando as ações tenham propósitos e conseqüências construtivas utilize-se o termo agressividade (quando forem ações que preservem a vida e o bem estar individual e social).

Seguindo esta linha de pensamento, Freire Costa (in Osorio, 2000) indica o uso da palavra violência para denominar atos intencionais que se caracterizam pelo uso da força, em situações de conflito, de transgressão às leis que visam o bem comum e do predomínio da crueldade sobre a solidariedade no convívio humano.

Nas relações humanas, a violência manifesta-se através de comportamentos e ações que as pessoas realizam nas interações estabelecidas nas mais diversas áreas que atuam, por isto, faz-se necessária a delimitação de parâmetros que permitam classificar as ações e os comportamentos destas como violentos ou não violentos.

Consideramos violência tudo aquilo que fere, destrói, agride ou machuca as pessoas – ações que não preservam a vida e/ou prejudicam o bem estar tanto individual quanto social. Como existem inúmeros fenômenos que correspondem a essa definição, podemos categorizar a violência seguindo os seguintes critérios:

  • A violência pode ser tanto física (quando ações ou comportamentos põem em risco a integridade física do indivíduo – ex. soco, chute, uso de armas) como simbólica (quando as ações e comportamentos trazem riscos à integridade psíquica e emocional do indivíduo – ex. ironia, intimidação, humilhação);
  • A violência pode ser tanto intencional (quando a pessoa que comete o ato violento tem a intenção e sabe que está agredindo outra pessoa ou grupo – ex. briga, xingamento) como não intencional (quando a pessoa que comete o ato violento não quer ou não tem a intenção de cometê-lo – ex. uma falta mais violenta em um jogo de futebol; machucar alguém em um acidente de trânsito);
  • A violência pode ser tanto "macro" (quando suas conseqüências atingem um grande número de pessoas – ex. o crime organizado, a fome, a corrupção, exclusão) como "micro" (quando suas conseqüências são sentidas nas relações cotidianas, pessoais, nos indivíduos – ex. agressão verbal, agressão física, "pressão da turma").
  • Dessa maneira, todo ser humano é potencialmente violento (já que tem a capacidade de emitir comportamentos violentos), mas sua violência latente pode não se manifestar se não houver estímulos suficientes para desencadeá-la. Qualquer um de nós pode matar alguém, se isso for necessário para defender sua vida ou a vida de alguém que considere importante.

Fatores que podem desencadear a violência

De uma maneira geral, quando queremos entender os acontecimentos a nossa volta, procuramos a causa do que estamos tentando explicar, como se pudéssemos reduzir tudo o que está envolvido no desencadeamento de uma ação a um único estímulo ou fato. É desse tipo de tentativa que surgem explicações como: o que causa a violência é a pobreza, ou a falta de instrução das pessoas, como se todos aqueles que são considerados pobres fossem igualmente violentos, ou se as pessoas instruídas não cometessem atos de violência.

Definimos anteriormente que a violência aparece nas relações humanas através dos comportamentos e ações que as pessoas têm nos seus relacionamentos do dia-a-dia. Para podermos entender os porquês de um comportamento, temos que levar em consideração que as ações que temos são resultado da ação de vários fatores que interagem entre si, produzindo dessa maneira um condicionamento mútuo e às vezes extremamente complexo (Kusnetzoff, 1982). Se pensarmos num comportamento relativamente simples como caminhar, podemos dizer que a disposição de uma pessoa para caminhar é criada pela ação dos seguintes fatores:

  • Congênitos: o que foi adquirido durante a vida fetal ou embrionária do individuo. Por exemplo: se o indivíduo foi submetido ao contato com algum tipo de substância que cause má formação fetal, e nasce sem as pernas, não poderá caminhar.
  • Hereditários: os elementos transmitidos geneticamente. Por exemplo: se o indivíduo nasce com alguma doença degenerativa dos músculos, não poderá caminhar na medida em que essa doença se desenvolva e atrofie seus músculos.
  • História de vida do indivíduo: tudo o que o indivíduo vivenciou e aprendeu durante sua vida e que serve de base para seus conceitos sobre certo/ errado, bem/mal, preferências, valores etc. Por exemplo: se a pessoa sofre um acidente, quebra a coluna e fica paraplégica não poderá caminhar, ou se ela decide que, como forma de protesto contra a destruição da natureza, ficará sentada durante um mês na porta de um zoológico, ela não caminhará durante esse um mês.

Sobre isso atuam os fatores atuais ou desencadeantes que fazem com que a pessoa emita um ou vários comportamentos que, no nosso exemplo, pode ser a simples necessidade de se locomover de uma maneira mais eficaz do que engatinhar, para pegarmos algum objeto que nos interesse, quando somos bem pequenos. Estes, por sua vez, atuam sobre o comportamento, aumentando ou diminuindo a disposição para que esse comportamento se repita: se formos pequenos e na tentativa de caminhar caímos e nos machucamos muito, pode ser que evitemos caminhar na próxima vez que essa necessidade surja e lancemos mão de algum outro comportamento, como gritar ou apontar, quando queremos alcançar um objeto.

Essa experiência é, então, acrescentada à história de vida do indivíduo, que influenciará a disposição para aquele comportamento.

Os fatores que intervêm no comportamento podem ser visualizados no seguinte esquema:

Podemos utilizar o mesmo esquema para explicar o que desencadeia comportamentos violentos, sendo necessário tê-lo sempre em mente para não cairmos na tentação de explicar a violência como efeito de um único estímulo, já que esse raciocínio leva inevitavelmente a ações ineficazes, não porque não se esteja atuando sobre algo relevante na manutenção da violência e sim porque ela se mantém pela ação de diversas causas.

Dessa maneira, é impossível afirmar que determinado acontecimento necessariamente irá desencadear um comportamento agressivo em todas as pessoas, pois cada um de nós tem histórias de vida diferentes, onde foram construídos nossos limites à frustração, conceitos sobre o que é certo ou errado, qual a maneira mais eficaz de se agir diante de um conflito etc. Também, não podemos afirmar que existam comportamentos que sejam em si violentos (um tiro, por exemplo, não é uma violência quando acontece dentro da prática esportiva do tiro ao alvo). Devemos sempre analisá-los no contexto em que eles surgem e as conseqüências daí recorrentes.

Existem estudos (Osório, 2000) que permitem esboçar traços caracterológicos que aparecem com freqüência em indivíduos considerados muito agressivos ou violentos. Tais indivíduos apresentam baixa auto-estima, alta vulnerabilidade à humilhação, inabilidade no auto-domínio e deficiente controle de seus impulsos e labilidade emocional. Estas características podem estar exacerbadas nesses indivíduos, mas aparecem com intensidade menor em todas as pessoas em algum momento de sua vida. Quais seriam as situações onde, somadas essas características a um fator desencadeante, a probabilidade de agirmos de modo violento aumenta?

A violência como tentativa de solucionar conflitos

"O conflito consiste em querer assumir posições que entram em oposição aos desejos do outro, que envolve uma luta pelo poder e que sua expressão pode ser explícita ou oculta atrás de uma posição ou discurso encobridor". Juan Carlos Vezzulla

Quando se pensa em conflito, a idéia geralmente tem uma conotação negativa. Logo ficamos preocupados, pois relacionamos o conflito a um perigo próximo do qual temos que nos defender.

Como todo os seres vivos, o homem procura preservar sua integridade psíquica e física. Essa integridade é construída ao longo da vida do indivíduo e inclui todas as suas posses (que vão desde os bens até a imagem que ele faz de si mesmo de acordo com seus valores morais). É essa integridade que se vê em perigo quando se aproxima um conflito. Num assalto, por exemplo, se eu não entregar meu dinheiro, o assaltante pode me matar ameaçando minha integridade física. Mas pode ser, também, que eu, nessa situação, me sinta impotente e ineficaz pelo fato de estar sendo assaltado, e neste caso o que está sendo ameaçado é minha integridade psíquica. A sensação de ameaça tem como chave o sentimento de invasão que geralmente sentimos, seja porque nossas ações e valores estão sendo questionados, seja porque nosso "corpo" (e aí podemos pensar que tudo que considero meu faz parte desse corpo – a casa em que vivo, o carro que tenho, as pessoas que gosto etc.) está em perigo.

Na tentativa de resolver conflitos (que pode ser causado por diversos fatores: invasão de nosso espaço pessoal, de nossa privacidade; dificuldades na comunicação; pressão; frustração; tensão... e que variam de acordo com a história de vida de cada pessoa) podemos, então, lançar mão de comportamentos agressivos e violentos. Segundo Vezzulla (1998), quando estamos em conflito, nos sentimos invadidos e acreditamos estar correndo o risco de perder alguma coisa. Por causa do medo de que isso aconteça, vamo-nos armando com uma série de comportamentos, inclusive ações que aparecem num crescendo de agressividade.

Quando, numa discussão, alguém duvida de minha palavra, eu posso me sentir extremamente ofendido e, ao invés de argumentar coerentemente com essa pessoa, começar a agredi-la verbalmente ou até mesmo partir para uma agressão física. O incômodo sentido pode ser tão grande que "explodimos" numa tentativa de aliviar a tensão, mas o que acontece, na maioria das vezes, é a utilização de estratégias violentas por estarmos acostumados a elas, não sabermos resolver o conflito de outra maneira, ou ainda, não medirmos as conseqüências dos atos violentos.

O conflito é natural e inevitável, não necessariamente destrutivo. A maneira como ele é manejado é que é a questão. Todos nós somos diferentes e enxergamos e avaliamos as coisas de maneiras distintas, por diferentes perspectivas, o que acaba por causar alguns atritos.

Quando a essa situação se soma a restrição das possibilidades de diálogo e de negociação (e no nosso dia-a-dia são vários os fatores que atuam dessa maneira, sendo que muitos deles agem sem que percebamos...), a probabilidade de lançarmos mão de ofensas que atacam, ferem a pessoa, agravando o problema e destruindo as relações é bastante aumentada.

Uma luz no fim do túnel

Tendo em mente que todo ser humano é potencialmente violento, que a violência em sua expressão "micro" aparece e é sentida nas relações do dia-a-dia, e que atos violentos aparecem com mais freqüência em situações de conflito, como podemos reduzir a probabilidade de que ela apareça?

Se as pessoas não sabem o que querem, nunca pararam para pensar a respeito de seus valores, sentimentos, não aprenderam ou não foram devidamente incentivadas a aprender estratégias não violentas para solucionar conflitos, ou não estão seguras de suas capacidades, conflitos podem surgir com muita freqüência e, fatalmente, suas próprias questões particulares aparecerão dificultando a resolução deste.

Cada um de nós pode se relacionar de uma maneira menos violenta, tornando-se mais consciente das reações diante de situações de conflito, ameaças e fortes emoções. Sabendo o que pode despertar nossa violência, podemos desenvolver habilidades para enfrentar os conflitos cotidianos, através de estratégias mais eficazes para resolvê-los. Além disso, quando estamos conscientes sobre as conseqüências de nossas ações, nos responsabilizamos por nossos atos, e podemos colocar em prática pequenas atitudes que interrompem cadeias de pequenas ações e atitudes agressivas, que poderiam levar a atos maiores de violência.

E você, está fazendo sua parte?

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